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Transição de Carreira, Saúde Emocional e os Desafios de Recomeçar


Vivemos em uma época em que a transição de carreira se tornou quase inevitável. As transformações tecnológicas, as mudanças no mercado de trabalho e as crises econômicas e políticas dos últimos anos exigem de cada profissional não apenas atualização, mas também coragem para recomeçar. No entanto, o que muitas vezes não se fala é sobre o peso emocional desse processo.


Falo não apenas como observador, mas como alguém que viveu essa experiência de forma profunda. Depois de décadas no mundo corporativo, ocupando posições de liderança e vivendo intensamente a lógica da performance e da entrega, percebi que o que antes me sustentava passou a me esvaziar. O sentido foi sendo substituído pela exigência constante de resultados, e o prazer deu lugar ao cansaço. Foi nesse ponto que o silêncio interno começou a gritar.



A importância de escutar a si mesmo



Toda transição de carreira começa por uma pergunta incômoda: “O que eu realmente quero para mim?”

Muitas vezes, a resposta não é imediata. No meu caso, levou anos até compreender que o que eu buscava não era um novo cargo ou uma nova empresa, mas um reencontro com o desejo — não o desejo de resultados, mas o desejo de presença, de escuta, de verdade.


Esse movimento não foi simples. Exigiu enfrentar preconceitos velados, inclusive o etarismo, que insiste em dizer que depois dos 50 ou 60 anos já não somos mais essenciais. Exigiu também lidar com inseguranças, perdas, rupturas e a pressão de uma sociedade que ainda mede o valor das pessoas apenas pelo que produzem. Mas foi justamente no processo de enfrentar essas barreiras que encontrei um novo caminho.



Saúde emocional como pilar da mudança



Transições não são apenas movimentos profissionais — são, acima de tudo, processos emocionais. Sem estabilidade interna, qualquer mudança se torna insustentável. Ao longo da minha trajetória, aprendi que cuidar da saúde emocional é a base que permite transformar crises em oportunidades.


Foi assim que a psicanálise entrou na minha vida. Não como uma resposta pronta, mas como um espaço para perguntas que nunca tinham sido feitas. Ela me ofereceu a possibilidade de olhar para mim mesmo sem máscaras e, ao mesmo tempo, me deu a oportunidade de olhar para o outro com profundidade. Hoje, como psicanalista clínico, trago essa experiência para cada paciente que atendo: a certeza de que não existe manual de vida, mas que existe a possibilidade de construir sentido mesmo nas incertezas.



Resiliência: mais que resistência, transformação



Ao longo dessa jornada, compreendi que resiliência não é rigidez. Não é apenas resistir às dificuldades, mas se adaptar sem perder o eixo. É transformar dores em força, medos em movimento e desafios em novas possibilidades.


Aos 61 anos, posso afirmar que a transição não me envelheceu — me amadureceu. Hoje me sinto mais inteiro, mais consciente do meu valor e, sobretudo, mais alinhado ao meu propósito. A maturidade não me afastou da evolução, me aprofundou.



O que quero deixar como mensagem



Se há algo que minha história pode ensinar, é que a transição de carreira é também uma transição de vida. Ela exige coragem, mas também exige cuidado consigo mesmo. Exige olhar para dentro, escutar o que realmente faz sentido, e ter a ousadia de não deixar que as expectativas externas determinem o seu caminho.


A sua história, a sua experiência e aquilo que você entrega ao mundo têm valor. Não permita que lhe digam o contrário. O etarismo existe, as barreiras são reais, mas o futuro continua aberto.


Eu encontrei, na psicanálise, um espaço de reencontro e de propósito. E acredito que cada um pode encontrar o seu, desde que tenha coragem de se escutar.


Julio Cesar Picelli

Psicanalista Clínico | Ex-Gestor de Tecnologia | Escritor e Palestrante sobre Psicanálise, Trabalho e Sociedade

 
 
 

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