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Ansiedade, Insegurança e Alto Desempenho: Uma leitura clínica para quem vive sob pressão constante



Se você chegou até aqui, talvez não esteja procurando novas técnicas de produtividade, métodos de organização ou estratégias para “dar conta de tudo”. É possível que a sua busca seja outra: compreender por que, mesmo funcionando bem, entregando resultados e sendo reconhecido, algo dentro de você não encontra descanso. Este texto não é um manual de soluções rápidas. É um convite à escuta. Não propõe controle emocional nem promessas de alívio imediato, mas compreensão,  e isso, muitas vezes, é o que verdadeiramente falta quando a ansiedade se instala.


Na clínica, a ansiedade persistente raramente aparece como um fenômeno isolado. Ela costuma sinalizar algo mais profundo: uma insegurança que se estruturou ao longo da vida e que encontrou no desempenho uma forma de sobrevivência. Trabalhar muito, antecipar riscos, ser impecável, estar sempre disponível;  tudo isso pode ter sido, em algum momento, uma resposta eficaz. O problema começa quando essa resposta se torna permanente e deixa de ser escolha para virar exigência interna.


Em ambientes de alta pressão com a tecnologia, a inovação, a liderança e a  gestão, a ansiedade é frequentemente normalizada. Viver acelerado, operar no limite e sustentar responsabilidades constantes parece fazer parte do jogo. O que se repete, no entanto, é um paradoxo clínico: profissionais competentes, responsáveis e reconhecidos chegam a um ponto em que o sucesso não se traduz em tranquilidade. Ao contrário, quanto mais avançam, mais sentem que precisam provar valor novamente. O trabalho funciona. A vida, nem sempre acompanha.


A psicanálise nos ajuda a compreender que nem toda ansiedade nasce do presente. Muitas vezes, ela se organiza a partir de uma história antiga, ligada à forma como a autoestima foi construída. Quando o sentimento de valor depende excessivamente do desempenho, da adaptação e do reconhecimento externo, estamos diante do que eu chamo "insegurança estrutural". O sujeito se torna produtivo, eficiente e confiável, mas internamente frágil. A ansiedade surge, então, como uma tentativa de garantir lugar, pertencimento e segurança. Não se trata de falha de caráter. Trata-se de defesa.


Para sustentar essa defesa, o controle passa a ocupar um lugar central. Controlam-se prazos, decisões, riscos, expectativas e, quando possível, as próprias emoções. O controle traz alívio momentâneo, mas cobra um preço alto: vigilância constante. Quando tudo precisa estar sob controle, o desejo perde espaço. O fazer deixa de ser guiado pelo querer e passa a ser organizado pelo medo de errar, falhar ou perder lugar. O profissional segue entregando, mas com menos prazer, menos vitalidade e menos presença. Surge um esgotamento silencioso, que não se resolve apenas com descanso ou férias.


Com o tempo, a ansiedade deixa de ser episódica e se torna crônica. O corpo permanece em alerta, a mente acelera, o repouso não repara. Mesmo quando tudo parece ir bem, algo permanece fora do lugar. É a angústia de quem vive sempre “segurando”. A vida passa a ser vivida como tarefa. Aguentar vira virtude. Resistir vira identidade. Aquilo que um dia protegeu começa, lentamente, a adoecer.


É nesse ponto que muitas pessoas deveriam ou buscam terapia: não por estarem “em crise”, mas porque sustentar tudo sozinho já não é possível. A psicanálise não promete eliminar a ansiedade. Ela propõe compreendê-la. O trabalho terapêutico permite investigar de onde vem essa exigência interna, reconhecer o papel do controle na história subjetiva, elaborar a insegurança sem patologização e, sobretudo, reposicionar o desejo na vida adulta. Com o tempo, a ansiedade deixa de comandar e passa a informar. O controle cede sem colapso. As escolhas se tornam mais alinhadas com quem se é, e não apenas com o que se espera.


Na minha prática clínica desenvolvo linhas de cuidado emocional voltadas especialmente a profissionais que vivem sob pressão constante. O foco não é afastar o sujeito do mundo real, mas ajudá-lo a viver nele com mais clareza e sustentação psíquica. Isso envolve uma escuta profunda da história subjetiva, a elaboração da ansiedade estrutural, a compreensão da relação entre desempenho e autoestima e a construção de formas mais sustentáveis de viver e trabalhar. Cuidar da vida emocional não é fragilidade. É condição de continuidade.


Lembro de um profissional de tecnologia, líder de equipe, reconhecido pela empresa e visto por todos como alguém “forte” e confiável, que chegou à clínica dizendo não saber exatamente o que o trazia, apenas que estava sempre cansado, mesmo quando nada parecia errado. Não queria mudar de carreira nem reduzir responsabilidades; queria entender por que o corpo não desligava e por que a sensação de estar sempre devendo algo nunca cessava. Ao longo do trabalho, foi possível perceber como sua autoestima estava inteiramente amarrada ao desempenho e como o controle permanente havia se tornado a única forma conhecida de se sentir seguro. Não se tratou de tirá-lo do mundo exigente em que vivia, mas de ajudá-lo a sustentar esse mundo sem se violentar internamente, reconhecendo limites, ressignificando o medo de falhar e recuperando um modo mais vivo e menos defensivo de estar no trabalho e na própria vida.


A ansiedade não precisa ser o fim do caminho. Ela pode ser o início de uma escuta mais honesta sobre o modo como você vive, trabalha e deseja. A terapia não promete cura. Promete algo mais real: aprender a lidar. E, para quem vive sob alta pressão, isso já é profundamente transformador.


Convite


Se este texto despertou algo em você, uma identificação, um incômodo silencioso ou a sensação de que sustentar tudo sozinho já não faz mais sentido, talvez seja o momento de dar um passo a mais. O cuidado terapêutico pode ser um espaço seguro para compreender o que a ansiedade, a insegurança e a angústia vêm tentando dizer e para construir formas mais sustentáveis de viver e trabalhar.


Se fizer sentido para você, fique à vontade para entrar em contato pelos canais disponíveis no meu site e conhecer o atendimento individual online e as linhas de cuidado voltadas à ansiedade, ao estresse e à insegurança profissional.


Sobre o autor


Julio Cesar Picelli é psicanalista clínico, com trajetória anterior como gestor e líder em ambientes corporativos e de tecnologia. Atua no atendimento de adultos que vivem ansiedade, esgotamento, insegurança profissional e crises ligadas ao trabalho, desempenho e identidade.

 
 
 

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