Ansiedade, Insegurança e Alto Desempenho: Uma leitura clínica para quem vive sob pressão constante
- Julio Cesar Picelli
- 29 de dez. de 2025
- 4 min de leitura

Se você chegou até aqui, talvez não esteja procurando novas técnicas de produtividade, métodos de organização ou estratégias para “dar conta de tudo”. É possível que a sua busca seja outra: compreender por que, mesmo funcionando bem, entregando resultados e sendo reconhecido, algo dentro de você não encontra descanso. Este texto não é um manual de soluções rápidas. É um convite à escuta. Não propõe controle emocional nem promessas de alívio imediato, mas compreensão, e isso, muitas vezes, é o que verdadeiramente falta quando a ansiedade se instala.
Na clínica, a ansiedade persistente raramente aparece como um fenômeno isolado. Ela costuma sinalizar algo mais profundo: uma insegurança que se estruturou ao longo da vida e que encontrou no desempenho uma forma de sobrevivência. Trabalhar muito, antecipar riscos, ser impecável, estar sempre disponível; tudo isso pode ter sido, em algum momento, uma resposta eficaz. O problema começa quando essa resposta se torna permanente e deixa de ser escolha para virar exigência interna.
Em ambientes de alta pressão com a tecnologia, a inovação, a liderança e a gestão, a ansiedade é frequentemente normalizada. Viver acelerado, operar no limite e sustentar responsabilidades constantes parece fazer parte do jogo. O que se repete, no entanto, é um paradoxo clínico: profissionais competentes, responsáveis e reconhecidos chegam a um ponto em que o sucesso não se traduz em tranquilidade. Ao contrário, quanto mais avançam, mais sentem que precisam provar valor novamente. O trabalho funciona. A vida, nem sempre acompanha.
A psicanálise nos ajuda a compreender que nem toda ansiedade nasce do presente. Muitas vezes, ela se organiza a partir de uma história antiga, ligada à forma como a autoestima foi construída. Quando o sentimento de valor depende excessivamente do desempenho, da adaptação e do reconhecimento externo, estamos diante do que eu chamo "insegurança estrutural". O sujeito se torna produtivo, eficiente e confiável, mas internamente frágil. A ansiedade surge, então, como uma tentativa de garantir lugar, pertencimento e segurança. Não se trata de falha de caráter. Trata-se de defesa.
Para sustentar essa defesa, o controle passa a ocupar um lugar central. Controlam-se prazos, decisões, riscos, expectativas e, quando possível, as próprias emoções. O controle traz alívio momentâneo, mas cobra um preço alto: vigilância constante. Quando tudo precisa estar sob controle, o desejo perde espaço. O fazer deixa de ser guiado pelo querer e passa a ser organizado pelo medo de errar, falhar ou perder lugar. O profissional segue entregando, mas com menos prazer, menos vitalidade e menos presença. Surge um esgotamento silencioso, que não se resolve apenas com descanso ou férias.
Com o tempo, a ansiedade deixa de ser episódica e se torna crônica. O corpo permanece em alerta, a mente acelera, o repouso não repara. Mesmo quando tudo parece ir bem, algo permanece fora do lugar. É a angústia de quem vive sempre “segurando”. A vida passa a ser vivida como tarefa. Aguentar vira virtude. Resistir vira identidade. Aquilo que um dia protegeu começa, lentamente, a adoecer.
É nesse ponto que muitas pessoas deveriam ou buscam terapia: não por estarem “em crise”, mas porque sustentar tudo sozinho já não é possível. A psicanálise não promete eliminar a ansiedade. Ela propõe compreendê-la. O trabalho terapêutico permite investigar de onde vem essa exigência interna, reconhecer o papel do controle na história subjetiva, elaborar a insegurança sem patologização e, sobretudo, reposicionar o desejo na vida adulta. Com o tempo, a ansiedade deixa de comandar e passa a informar. O controle cede sem colapso. As escolhas se tornam mais alinhadas com quem se é, e não apenas com o que se espera.
Na minha prática clínica desenvolvo linhas de cuidado emocional voltadas especialmente a profissionais que vivem sob pressão constante. O foco não é afastar o sujeito do mundo real, mas ajudá-lo a viver nele com mais clareza e sustentação psíquica. Isso envolve uma escuta profunda da história subjetiva, a elaboração da ansiedade estrutural, a compreensão da relação entre desempenho e autoestima e a construção de formas mais sustentáveis de viver e trabalhar. Cuidar da vida emocional não é fragilidade. É condição de continuidade.
Lembro de um profissional de tecnologia, líder de equipe, reconhecido pela empresa e visto por todos como alguém “forte” e confiável, que chegou à clínica dizendo não saber exatamente o que o trazia, apenas que estava sempre cansado, mesmo quando nada parecia errado. Não queria mudar de carreira nem reduzir responsabilidades; queria entender por que o corpo não desligava e por que a sensação de estar sempre devendo algo nunca cessava. Ao longo do trabalho, foi possível perceber como sua autoestima estava inteiramente amarrada ao desempenho e como o controle permanente havia se tornado a única forma conhecida de se sentir seguro. Não se tratou de tirá-lo do mundo exigente em que vivia, mas de ajudá-lo a sustentar esse mundo sem se violentar internamente, reconhecendo limites, ressignificando o medo de falhar e recuperando um modo mais vivo e menos defensivo de estar no trabalho e na própria vida.
A ansiedade não precisa ser o fim do caminho. Ela pode ser o início de uma escuta mais honesta sobre o modo como você vive, trabalha e deseja. A terapia não promete cura. Promete algo mais real: aprender a lidar. E, para quem vive sob alta pressão, isso já é profundamente transformador.
Convite
Se este texto despertou algo em você, uma identificação, um incômodo silencioso ou a sensação de que sustentar tudo sozinho já não faz mais sentido, talvez seja o momento de dar um passo a mais. O cuidado terapêutico pode ser um espaço seguro para compreender o que a ansiedade, a insegurança e a angústia vêm tentando dizer e para construir formas mais sustentáveis de viver e trabalhar.
Se fizer sentido para você, fique à vontade para entrar em contato pelos canais disponíveis no meu site e conhecer o atendimento individual online e as linhas de cuidado voltadas à ansiedade, ao estresse e à insegurança profissional.
Sobre o autor
Julio Cesar Picelli é psicanalista clínico, com trajetória anterior como gestor e líder em ambientes corporativos e de tecnologia. Atua no atendimento de adultos que vivem ansiedade, esgotamento, insegurança profissional e crises ligadas ao trabalho, desempenho e identidade.





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