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A angústia que não vai embora: o vazio existencial na sociedade do prazer imediato


Por que essa angústia contemporânea parece não nos abandonar? Por que, mesmo quando aparentemente está tudo bem, permanece aquela sensação incômoda de que algo está faltando? A dificuldade de se sentir completo talvez não seja um defeito individual, mas um sintoma do tempo em que vivemos. A pergunta que precisamos fazer não é apenas o que está errado comigo, mas o que está acontecendo com o mundo que habito.


Tenho a impressão de que a sociedade contemporânea decidiu se sustentar quase exclusivamente na lógica do prazer. Prazer do consumo, prazer do sucesso, prazer da performance e, sobretudo, prazer da comparação com o outro. Os valores tornaram-se cada vez mais visíveis e estéticos. A imagem ganhou mais importância que a experiência. O sagrado perdeu espaço para a razão técnica. Tudo precisa ser explicado, resolvido, otimizado. Há sempre uma solução, um método, um aplicativo, uma promessa de felicidade pronta para download.


Vivemos aquilo que Zygmunt Bauman chamou de modernidade líquida. As relações são líquidas, os compromissos são líquidos, as referências são líquidas. Até o amor, que durante séculos foi visto como construção duradoura e um dos grandes sentidos da vida, tornou-se frágil, substituível e rapidamente descartável. O prazer ficou fácil, acessível e imediato. No entanto, quanto mais acessível ele se torna, menos consistente parece ser. Quanto mais rápido o prazer chega, mais rápido ele desaparece, deixando atrás de si uma sensação difusa de vazio.


É claro que não podemos ignorar o contexto social brasileiro. Para grande parte da população, a questão não é escolher o sentido da vida, mas sobreviver. Muitas pessoas não têm liberdade real de escolha. A rotina é determinada pela necessidade e não pelo desejo. Em muitos casos, não é o sujeito que decide como viver no Brasil, é o Brasil que decide por ele. Ainda assim, mesmo entre aqueles que possuem maior autonomia, a angústia permanece. Isso indica que talvez o problema não seja apenas econômico ou estrutural. Talvez seja existencial.


Quando Friedrich Nietzsche afirmou que Deus estava morto, ele não fazia apenas uma provocação religiosa. Ele anunciava o colapso das grandes estruturas de sentido que organizavam a vida humana. As certezas absolutas, os valores fixos, as verdades inquestionáveis estavam ruindo. O que surge após essa queda é o niilismo, a sensação de que nada possui valor duradouro ou fundamento sólido. Se antes havia pilares que orientavam o caminho, agora há um campo aberto em que tudo parece possível, mas nada parece definitivo.


O niilismo não é simplesmente desespero. Ele é a experiência de viver em um mundo onde os sentidos não são dados, mas precisam ser criados. O problema é que criar sentido exige responsabilidade, esforço e posicionamento. É mais confortável consumir sentidos prontos. É mais fácil seguir modelos de sucesso já definidos do que encarar a tarefa de perguntar quem sou eu e o que realmente quero sustentar como valor.


Dentro de um cenário em que os grandes referenciais de sentido se fragilizam e o prazer é promovido como solução universal, o vazio existencial passa a ocupar um lugar quase constante e, muitas vezes, doloroso. Paralelamente, cresce a tendência de medicalizar a experiência humana: toda angústia precisa rapidamente de um diagnóstico, a tristeza é convertida em transtorno, a inquietação em distúrbio e a dúvida em sintoma clínico. Defendo, de forma responsável e enfática, a busca por acompanhamento médico e psicológico, pois há quadros que exigem cuidado especializado. No entanto, é fundamental reconhecer que nem todo sofrimento é patologia. Existe uma dimensão da dor que pertence à própria condição humana e que não pode e nem deve ser reduzida a um rótulo.


A vida não é fácil, mas é possível. Ela não precisa de uma resposta definitiva sobre para que serve. Ela ganha valor justamente porque é atravessada por altos e baixos, por perdas e reconstruções. Quando o sujeito consegue reconhecer o próprio vazio, aceitar que a falta é estrutural e começar a preenchê-la com experiências vivas e escolhas autênticas, algo se transforma. Não é um passe de mágica. É um ato de coragem. Dar sentido à própria existência exige posicionamento, direção e identidade. Muitas vezes o vazio está ligado à falta de identificação, à dificuldade de reconhecer aquilo que cada um tem de singular e diferente. Adaptar-se é mais fácil do que assumir-se, mas a adaptação excessiva cobra um preço silencioso.


A psicanálise não promete eliminar o vazio porque sabe que ele faz parte da estrutura do desejo. O que ela oferece é um espaço para compreender esse vazio, escutá-lo e diferenciá-lo das expectativas impostas pelo outro. Ao invés de tentar anestesiar a angústia com respostas rápidas, a análise convida o sujeito a investigar sua própria história, seus investimentos, suas idealizações e suas renúncias. Nesse processo, o vazio deixa de ser um inimigo a ser combatido e pode tornar-se uma bússola que aponta para aquilo que ainda não foi vivido.


Talvez a angústia contemporânea não seja um defeito a ser corrigido, mas um sinal de que estamos tentando preencher a falta com o que nunca poderá satisfazê-la. Quando a falta é compreendida e integrada, ela deixa de ser paralisante e passa a ser motor de movimento.


Não é sobre encontrar uma fórmula pronta para a felicidade. É sobre assumir a responsabilidade de construir sentido em um mundo que já não o entrega embalado.

E essa construção raramente acontece sozinho. É na escuta, na reflexão e na elaboração que o sujeito começa a transformar o vazio em direção.


Se essa reflexão tocou em algo que você vem sentindo, talvez não seja coincidência. A angústia que insiste em permanecer pode estar pedindo elaboração, não anestesia. Conversar sobre isso em um espaço seguro e estruturado pode transformar o vazio em direção e a inquietação em movimento. Se você deseja aprofundar essa compreensão e construir um sentido mais sólido para sua vida e suas escolhas, entre em contato. Às vezes, o primeiro passo não é encontrar respostas prontas, mas começar a fazer as perguntas certas.



Referências Bibliográficas


BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BAUMAN, Zygmunt. Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

FREUD, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização (1930). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, Sigmund. Sobre o Narcisismo: Uma Introdução (1914). In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar.

LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 7: A Ética da Psicanálise (1959-1960). Rio de Janeiro: Zahar.

NIETZSCHE, Friedrich. A Gaia Ciência (1882). São Paulo: Companhia das Letras.

NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra (1883-1885). São Paulo: Companhia das Letras.

NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da Moral (1887). São Paulo: Companhia das Letras.

 
 
 

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