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É época de Carnaval


Na sexta-feira antes do Carnaval, algo curioso acontece. O mesmo profissional que passou o ano inteiro administrando metas, planilhas, crises e indicadores começa a falar de descanso com um brilho diferente no olhar. O e-mail perde um pouco da urgência. Os grupos de trabalho silenciam. A agenda, antes congestionada, abre espaços inesperados. É como se o país inteiro recebesse uma autorização simbólica: pode desligar.


E desligar, no Brasil, é quase um ato revolucionário.


Todo mundo fala em fantasia no Carnaval. Mas talvez essa seja a única época do ano em que a gente tem coragem de tirar uma fantasia, e não de vestir uma. Durante meses, usamos outras máscaras: a do profissional sempre disponível, a do líder que não pode demonstrar cansaço, a do colaborador resiliente demais, a do “está tudo sob controle”. No Carnaval, algo afrouxa. Não é só a roupa. É o papel. O controle cede espaço ao improviso. A obrigação dá lugar ao desejo. A meta vira música.


Mesmo quem não é folião; como eu; sente esse deslocamento. Não pulo bloco, não tenho glitter no rosto, mas não posso negar que o clima me afeta. Há algo profundamente prazeroso na sensação coletiva de que está tudo bem não fazer nada… ou fazer tudo. Sem culpa.


Vivemos numa época em que o trabalho engoliu o cotidiano. Os problemas que mais ocupam nossa mente são problemas de desempenho, entrega, posicionamento, resultado. O celular vibra mais do que as conversas à mesa. O prazo virou categoria emocional. O Carnaval, gostemos ou não, funciona como uma válvula de escape socialmente legitimada. E isso não é pouca coisa.


O ser humano não aguenta viver apenas sob tensão. Uma sociedade que não cria espaços de descarga emocional adoece. Um indivíduo que não permite pausas, implode. No Carnaval, os problemas não desaparecem, mas mudam de natureza. A tensão da reunião vira a dúvida sobre onde encontrar os amigos. A cobrança vira riso. A formalidade dá lugar à espontaneidade. Parece pequeno, mas é estrutural.


Existe algo profundamente terapêutico na informalidade. No almoço sem pressa. Na conversa sem pauta. No abraço que não está mediado por performance. Durante esses dias, reencontramos amigos e familiares num estado menos produtivo e mais verdadeiro. Sem KPI. Sem ranking. Sem comparação. Só presença. E isso nos lembra algo essencial: nós não somos apenas aquilo que entregamos. Somos também aquilo que compartilhamos.


Eu gosto do silêncio diferente da cidade. Do ritmo mais lento. De observar a diversidade nas ruas — corpos, cores, histórias, expressões. Gosto dessa permissão coletiva para descansar. É quase como se disséssemos, juntos: podemos existir sem performar. E talvez essa seja a fantasia mais pesada que carregamos o ano inteiro: a da performance constante.


O Carnaval não resolve os problemas estruturais do trabalho. Não elimina o estresse crônico nem cura a ansiedade profissional. Mas cria uma pausa. E pausas são estruturantes. O equilíbrio não nasce da ausência de tensão, mas da alternância. Trabalho e descanso. Entrega e prazer. Responsabilidade e leveza.


Sem essa alternância, o corpo paga. A mente cobra. A vida encolhe.


Quando a quarta-feira de cinzas chegar, a rotina volta. A fantasia social também. Mas talvez possamos levar algo diferente desses dias: a consciência de que desligar não é fraqueza, é necessidade psíquica. Que o prazer não é luxo, é manutenção. Que o descanso não é perda de tempo, é sustentação de vida.


Aproveite a pausa, cuide de você e lembre-se: até a válvula de escape precisa de consciência para não virar excesso.

É época de Carnaval. E, talvez, seja também época de lembrar que viver não é apenas produzir. É sentir, encontrar, rir, descansar e, de vez em quando, simplesmente ser.




 
 
 

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