Como uma jornada profissional vira ajuda e cuidado
- Julio Cesar Picelli
- 12 de jan.
- 3 min de leitura

Existe um momento na vida profissional em que o currículo deixa de ser apenas uma lista de cargos, empresas e conquistas. Ele passa a ser, silenciosamente, um mapa de experiências humanas. De medos enfrentados, decisões difíceis, escolhas feitas sob pressão, perdas, reinvenções e, sobretudo, aprendizados que não cabem em nenhuma certificação.
A minha trajetória profissional não começou na clínica. Ela foi construída em ambientes de alta exigência, metas apertadas, responsabilidade constante e pressão por resultados. Durante muitos anos, vivi o que milhares de profissionais vivem todos os dias: a necessidade de sustentar decisões, liderar pessoas, lidar com incertezas e, muitas vezes, engolir angústias para seguir funcionando.
Esse passado não ficou para trás quando escolhi a psicanálise. Ele se transformou em alicerce.
Quando a experiência deixa de ser bagagem e vira escuta
A clínica não é um lugar neutro. Ela é atravessada pela história de quem escuta. E quando um paciente chega falando de ansiedade no trabalho, medo de errar, insegurança profissional, sensação de estar sempre aquém ou exaustão emocional, isso não é apenas um conceito teórico para mim. É um território conhecido.
Não porque eu tenha vivido exatamente a mesma história — cada sujeito é único —, mas porque compreendo, de dentro, o que significa viver sob cobrança constante, carregar expectativas alheias, sustentar uma imagem profissional e, ao mesmo tempo, sentir que algo vai se perdendo por dentro.
Essa vivência muda a qualidade da escuta. Ela traz mais precisão, menos julgamento e mais respeito pelo tempo psíquico de cada um.
Identidade profissional também é identidade psíquica
Muitos sofrimentos que aparecem no consultório não dizem respeito apenas à vida pessoal. Eles atravessam diretamente a identidade profissional. Quem eu sou sem o meu cargo? O que sobra de mim quando o reconhecimento externo falha? Até onde consigo ir sem adoecer? O que acontece quando o trabalho deixa de fazer sentido?
Ter passado anos construindo uma identidade profissional fora da clínica me permite compreender que o trabalho não é apenas um meio de sobrevivência. Ele organiza o desejo, o valor próprio, a autoestima e o lugar que cada um ocupa no mundo.
Por isso, o cuidado terapêutico não se limita a aliviar sintomas. Ele ajuda o paciente a reorganizar a relação com o próprio desejo, com seus limites e com as exigências da realidade.
O impacto disso no processo terapêutico
Na prática, essa narrativa profissional cria um campo de maior confiança. Muitos pacientes relatam sentir-se mais compreendidos, menos explicados demais e menos pressionados a “dar conta” também na terapia.
O processo se torna mais honesto. Há espaço para falar do cansaço, da ambivalência, da vontade de mudar e, ao mesmo tempo, do medo de perder o que foi construído. Não se trata de incentivar rupturas impulsivas nem de sustentar sofrimentos desnecessários, mas de construir saídas possíveis, sustentáveis e coerentes com a vida real de cada sujeito.
A terapia se torna um lugar onde não é preciso performar, competir ou provar nada. Um espaço onde o profissional pode, finalmente, existir como pessoa.
Quando o passado sustenta o cuidado
Minha jornada profissional não foi abandonada para que eu pudesse cuidar. Ela foi integrada. É ela que sustenta minha ética, minha escuta e minha forma de conduzir o processo terapêutico.
Acredito profundamente que quanto mais o terapeuta conhece seus próprios atravessamentos, mais ele pode oferecer um espaço seguro ao outro. E quando a experiência se transforma em sensibilidade, o cuidado deixa de ser apenas técnica. Ele se torna presença.
Se você sente que sua história profissional pesa, confunde ou silencia algo importante em você, talvez a terapia possa ser o espaço para dar sentido a isso. Não para apagar o passado, mas para transformá-lo em algo que sustente, e não que adoeça.
Cuidar da saúde emocional também é uma forma de honrar a própria trajetória.
Julio Cesar Picelli - Psicanalista Clínico





Comentários