Recomeçar em Si: Entre o passado que pesa e o futuro que assusta.
- Julio Cesar Picelli
- 12 de nov. de 2025
- 3 min de leitura
A psicanálise pode oferecer um espaço para reencontrar o sujeito que ainda deseja.

Há um momento na vida em que o espelho deixa de mostrar apenas o corpo e começa a refletir o tempo. Não o tempo das rugas ou dos cabelos brancos, mas o tempo da alma e aquele que pergunta em silêncio: “E agora, quem sou eu?”
Chegar à meia-idade ou à terceira idade não é apenas uma passagem cronológica. É um ponto de inflexão psíquica. O trabalho já não define tanto, os filhos talvez tenham seguido seus caminhos, os amores já não carregam o mesmo fogo ou, ao contrário, revelam uma profundidade antes desconhecida. A vida muda de ritmo e é nesse compasso diferente que algo dentro de nós pede para ser ouvido.
A psicanálise chama esse movimento de retorno do sujeito ao seu desejo. Como lembrava Jacques Lacan, “o desejo é o desejo do Outro”, e parte da tarefa de amadurecer é descobrir de que Outro estamos, afinal, nos libertando. Entre o que esperavam de nós e o que de fato queremos ser, existe um espaço de reconciliação, o espaço da escuta analítica.
Freud já apontava que o sofrimento humano nasce do conflito entre o que o indivíduo quer e o que o mundo lhe permite desejar. Em “O Mal-Estar na Civilização”, ele lembra que não há vida psíquica sem renúncia, mas também não há paz sem algum grau de realização pulsional. A pulsão; essa força vital que move o desejo, a criatividade e até a curiosidade; não desaparecem com a idade. Elas se transformam. E quando não encontram espaço para se expressar, podem se converter em sintomas, angústia, apatia ou até doenças psicossomáticas.
Quantas vezes ouvimos alguém dizer: “Agora é tarde demais pra mudar” ou “Já vivi o que tinha de viver”? São frases que escondem um luto silencioso: o luto do desejo. Mas a psicanálise nos ensina que o inconsciente não envelhece. Ele continua a pulsar, a desejar, a sonhar, mesmo quando o corpo desacelera. Lacan diria que “o inconsciente é o discurso do Outro”, e esse discurso não conhece cronologia. O sujeito não tem idade; o que tem idade é o personagem que vestimos.
Na clínica, vejo com frequência como a terapia pode ser um espaço de reintegração da identidade. Muitos chegam sentindo-se deslocados, “sem função”, como se o mundo tivesse seguido e eles tivessem ficado para trás. Aos poucos, com escuta e presença, percebem que o que dói não é o tempo que passou, é o que não foi simbolizado, o que não pôde ser dito, o que ficou suspenso entre o dever e o desejo.
Donald Winnicott dizia que a saúde emocional nasce da capacidade de ser verdadeiro consigo mesmo, de “viver criativamente”. Na maturidade, esse viver criativo pode se expressar em pequenas coisas, um gesto, uma escolha, uma palavra dita com autenticidade. Não se trata de voltar a ser jovem, mas de redescobrir o gesto espontâneo que o tempo e as obrigações foram silenciando.
Trabalhar essas questões é mais do que “fazer terapia”: é um ato de reconciliação com a própria história. É reconhecer que ainda há desejos, mesmo que diferentes; que ainda há amor, mesmo que com novas formas; que ainda há vida, mesmo que com outro ritmo.
A psicanálise, nesse sentido, não é uma técnica para “curar o passado”, mas uma ferramenta para escutar o presente de forma mais viva. Ela ajuda a transformar o medo de envelhecer em um encontro mais autêntico consigo. A dar sentido ao que parecia perda. A transformar a angústia em sabedoria.
Porque não há fim para o desejo enquanto houver sujeito.
E enquanto houver desejo, há caminho.
No fim, talvez seja isso que o tempo quer nos ensinar: não se trata de voltar a ser quem fomos, mas de reencontrar quem ainda podemos ser.
Julio Cesar Picelli
Psicanalista Clínico | Escritor e Palestrante sobre Psicanálise, Trabalho e Sociedade
Bibliografia
Freud, Sigmund — O mal-estar na civilização. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
Freud, Sigmund — Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. São Paulo: Companhia das Letras, 2016.
Lacan, Jacques — O seminário, livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Lacan, Jacques — Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
Winnicott, D. W. — O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
Winnicott, D. W. — Natureza humana. Porto Alegre: Artmed, 1990.
Birman, Joel — O sujeito na contemporaneidade: Espaço, dor e desalento na atualidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.
Bauman, Zygmunt — A arte da vida. Rio de Janeiro: Zahar, 2009.





Comentários