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Por que nunca me sinto suficiente? Trabalho, família e cultura sob o espelho da vida

Do adolescente em frente ao espelho ao adulto que veste máscaras sociais, por que a sensação de inadequação nunca nos abandona?



Quem nunca passou minutos, ou horas na frente do espelho tentando se arrumar? Na adolescência isso parece ainda mais intenso. Ajustamos o cabelo, a roupa, o sorriso, como se cada detalhe pudesse finalmente nos fazer sentir que “somos nós mesmos”. Mas, no fundo, sempre sobra a sensação de que o reflexo não combina com aquilo que sentimos por dentro.


Lacan chamou esse momento de Estádio do Espelho. É quando o sujeito reconhece a própria imagem, mas percebe algo curioso: ela parece inteira, perfeita, mas não traduz de fato a experiência interior. Existe sempre uma diferença entre o que se vê e o que se é.


Essa experiência não fica só na adolescência. Na vida adulta, os espelhos mudam de forma: o trabalho, a família, a cultura.


No trabalho, por exemplo, quantas vezes precisamos vestir a imagem do profissional de sucesso, mesmo quando estamos inseguros, cansados ou até desmotivados? O crachá funciona como um reflexo social: bonito por fora, mas que esconde as rachaduras de dentro.


Na família, os papéis também pesam. O “bom filho”, a “boa mãe”, o “pai provedor”. São imagens que tentamos sustentar, mas que raramente dão conta da complexidade do que realmente somos. Sempre sobra uma parte nossa que não cabe nesses rótulos.


E a cultura, talvez, seja o maior espelho de todos. Ela insiste em nos mostrar padrões de corpo, carreira e felicidade. Quando nos olhamos nesses reflexos, é comum sentirmos que estamos sempre em falta. Nunca é suficiente.


É nesse ponto que surge a angústia. Não porque falhamos, mas porque acreditamos que um dia conseguiremos nos encaixar completamente. Lacan nos lembra: essa falta não é defeito, é condição de ser humano. O erro está em buscar uma imagem perfeita que nunca vai existir.


O convite, então, não é abolir os espelhos — eles sempre estarão lá —, mas aprender a reconhecer que não somos apenas aquilo que eles mostram. Entre a imagem e a vida real existe uma fenda, e é justamente aí que mora nossa singularidade.


No fundo, o adolescente diante do espelho e o adulto com crachá no peito não são tão diferentes: ambos tentam negociar com imagens que nunca se ajustam por inteiro. Talvez a saída seja aceitar que a incompletude faz parte — e que é nela que encontramos nossa verdadeira liberdade de ser.


Julio Cesar Picelli

Psicanalista Clínico | Escritor e Palestrante sobre Psicanálise, Trabalho e Sociedade



Bibliografia

• LACAN, Jacques. O Estádio do Espelho como Formador da Função do Eu. In: Escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

• LACAN, Jacques. O Seminário, Livro 10: A Angústia (1962-1963). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.

• DUNKER, Christian. Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica. São Paulo: Annablume, 2011.

 
 
 

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