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O que não te contaram sobre a meia-idade



Você vira expert em resolver tudo… menos a própria agenda 


Existe um momento na vida, normalmente entre os 40 e os 60, em que acontece algo curioso: você finalmente descobre que é capaz de resolver praticamente qualquer problema… menos o de administrar a sua própria agenda.


É impressionante. Você resolve conflitos no trabalho, gerencia prazos impossíveis, ajuda familiares, aconselha amigos, apaga incêndios emocionais e tecnológicos mas, quando abre o calendário para organizar a semana, parece que o universo inteiro decide pedir “só cinco minutinhos”.


E esses cinco minutos somem, claro. Mas a culpa fica.


A meia-idade é assim: você ganha competência, mas perde tempo; ganha clareza, mas perde paciência; ganha repertório, mas perde a ilusão de que dá para dar conta de tudo. E, no meio disso tudo, nasce um talento que ninguém ensina, mas que todo mundo adquire: o de ser multitarefa afetivo-operacional. Ou seja: você faz mil coisas menos aquela que jurou que faria “na segunda-feira sem falta”.



A maturidade como o momento em que a vida deixa de caber na agenda



Quando a psicanálise fala sobre a entrada na maturidade, não está falando apenas sobre idade. Está falando sobre o encontro entre aquilo que você deseja e aquilo que você suporta. E é exatamente aí que a agenda começa a falhar: não porque você não saiba se organizar, mas porque a vida ganhou camadas.


Aos 20, você tinha tempo e pouca história.

Aos 40+, você tem história demais e tempo de menos.


E isso não é fracasso, é evolução.


A vida vai ficando mais complexa. Suas responsabilidades aumentam, suas relações se aprofundam, suas escolhas têm mais consequências, e sua saúde mental finalmente começa a emitir alertas que você já deveria ter ouvido lá atrás mas não ouviu, porque achou que dava para “empurrar mais um pouco”.


Tudo isso se reflete onde? Na agenda. Não é que você não saiba se organizar. É que você deixou de ser uma pessoa de uma única tarefa.



A verdade é que você virou o suporte técnico emocional de todo mundo



A meia-idade transforma você em um tipo de “help desk afetivo”: todo mundo liga, manda mensagem, pede orientação, conselho, socorro e, às vezes, até autorização emocional para fazer coisas que só dependem delas mesmas. E você? Atende. Porque, afinal, você consegue ajudar.


Profissional ou não, você se torna especialista em resolver problemas: os dos outros. Sabe ouvir, interpretar, antecipar, organizar, minimizar danos, sugerir caminhos. É quase um talento natural: a maturidade te dá repertório, e o repertório te dá poder.


Mas existe um detalhe que ninguém menciona:


Quanto mais você resolve os outros, mais difícil fica encontrar espaço para resolver a si próprio.

Na psicanálise, chamamos isso de deslocamento: quando você cuida do mundo inteiro para evitar olhar para as próprias questões. E o reflexo mais simples e democrático desse deslocamento é a agenda lotada, truncada, ou propositalmente confusa.


Sim, propositalmente. Porque não encarar a própria vida às vezes é uma forma de “ganhar tempo”.



O drama da “segunda-feira perfeita”



Se existe um ritual universal da meia-idade, é esse: planejar que “na próxima segunda-feira tudo muda”. Você vai acordar cedo, organizar a casa, responder e-mails, fazer exercícios, meditar, colocar a vida em ordem, cuidar da saúde, rever metas, pensar no futuro, preparar o almoço saudável e ainda terminar o relatório que o seu eu da semana passada jurou que seria “rapidinho”.


Mas a segunda-feira chega.


E, dentro de meia hora, vira quarta.


A boa notícia? Isso não é desorganização. É humanidade. O desejo se move mais devagar que o relógio. E a vida adulta tem demandas que nenhuma agenda comporta.



Onde entra a psicanálise nessa história?


A psicanálise não vai te ensinar a ser “mais produtivo”, a fazer bullet journal ou a transformar sua rotina em um ritual transcendental.


Ela faz algo bem mais profundo (e útil): bEla te ajuda a entender por que a sua agenda não funciona para você.


Às vezes é excesso de responsabilidade.

Às vezes é medo de dizer “não”.

Às vezes é culpa por priorizar a si mesmo.

Às vezes é ansiedade por imaginar que, se você parar, tudo desmorona.

Às vezes é apenas o corpo pedindo descanso e você insistindo que não é cansaço, “é só uma fase”.


E, na maior parte das vezes, é a vida dizendo que você precisa se escutar.


Organizar a agenda não resolve isso. Mas entender o que ela revela sobre você — isso transforma.



A meia-idade não é descontrole: é crescimento



Chegar aos 40+, 50+, 60+ não significa perder capacidade. Significa ganhar profundidade. E profundidade ocupa espaço: na mente, nas emoções, no tempo. Por isso sua agenda não cabe mais em você.Porque você não é mais alguém que vive para cumprir tarefas.


Você é alguém que vive para sustentar uma história — a sua.


E histórias não seguem horários.

Elas seguem processos.



No fim das contas…



O que não te contaram é simples:


Você virou expert em resolver tudo porque precisou.

E perdeu a própria agenda porque cresceu.


E não há nada de errado nisso.


Se a vida parece grande demais para caber nos seus horários, talvez seja justamente o momento de olhar para ela com mais cuidado, com humor, com gentileza e, quem sabe, com a ajuda de alguém que entende o que é viver entre demandas externas e desejos internos.


Julio Cesar Picelli - Psicanalista Clínico




Bibliografia:


  • Freud, Sigmund. O Mal-Estar na Civilização.

  • Freud, Sigmund. Além do Princípio do Prazer.

  • Lacan, Jacques. Escritos.

  • Winnicott, D. W. O Brincar e a Realidade.

  • Winnicott, D. W. A Maturidade no Desenvolvimento Humano.

  • Jung, Carl G. O Desenvolvimento da Personalidade.

  • Bauman, Zygmunt. Modernidade Líquida.

  • Bauman, Zygmunt. Vida Líquida.


 
 
 

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