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Nietzsche & EU

Atualizado: 9 de out. de 2025




Durante muito tempo, as ideias de Nietzsche pareciam pairar sobre mim como provocações distantes. Eu lia sobre o niilismo e a vontade de potência, mas parecia coisa de outro mundo, de outros homens, de outros tempos. O curioso é que, mesmo sem perceber, esses pensamentos sempre estiveram presentes, quase como um fio subterrâneo que conduzia escolhas, inquietações e silêncios.


Agora, depois de 60 anos de vida, percebo que esse fio estava ali desde cedo. Quando buscava reconhecimento no olhar dos outros, quando me esforçava para corresponder às expectativas da família, da cultura, do trabalho, e quando me questionava sobre o sentido de estar no mundo, em tudo isso, já havia algo de Nietzsche me atravessando. A vida, na prática, sempre me exigiu encarar o desprazer, as dúvidas sobre propósito e a inquietação diante do que é real, ilusório ou simplesmente nada.


Por muito tempo, vivi como muitos vivem: tentando responder às demandas externas, aos papéis esperados, às instituições que moldam o que “deveria ser” um caminho certo. Mas o encontro verdadeiro, aquele que transforma, só começou quando tive coragem de olhar para dentro e reconhecer o que eu realmente queria para mim, sem medo, sem máscaras. Esse movimento de encontro com o meu próprio desejo foi me conduzindo, pouco a pouco, ao que sou hoje. 


Aos poucos compreendi que Nietzsche não nos entrega manuais de vida, não propõe receitas prontas ou atalhos para ser feliz. O que ele faz é algo muito mais radical: ele nos chama a refletir sobre o que significa viver de forma autêntica, sem terceirizar o sentido da existência.


Hoje, quando olho para minha história — das escolhas profissionais às mudanças de rumo, das perdas às conquistas, dos momentos de força às fragilidades assumidas, percebo que cada passo me aproximou dessa compreensão. Talvez por isso eu tenha encontrado na psicanálise não apenas um caminho profissional, mas também uma forma de vida: um espaço para escutar, pensar e reconhecer que não há essência pré-definida, apenas a construção singular de cada sujeito diante do vazio e do absurdo que a vida também traz.


Nietzsche continua atual porque nos devolve à vida em sua crueza e intensidade. Não apenas a vida biológica que pulsa em nossas veias, mas aquela experiência única e pessoal que nos convida a refletir: qual é, afinal, a minha verdade? O que é real, o que é ilusão e o que é apenas nada?


Essa jornada feita de filosofia, de dores, de aprendizados e de reencontros comigo mesmo é o que me trouxe até aqui. Não tenho todas as respostas, mas aprendi que talvez o mais importante não seja encontrá-las, e sim não desistir de perguntar.



Julio Cesar Picelli

Psicanalista Clínico | Escritor e Palestrante sobre Psicanálise, Trabalho e Sociedade


Bibliografia
  • NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

  • NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

  • SAFRANSKI, Rüdiger. Nietzsche: biografia de uma tragédia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

  • MARTON, Scarlett. Nietzsche: a transvaloração dos valores. São Paulo: Brasiliense, 1990.

  • BIRMAN, Joel. Nietzsche e a clínica psicanalítica. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2000.




 
 
 

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