Nem todo Natal é igual, e tudo bem!
- Julio Cesar Picelli
- 23 de dez. de 2025
- 3 min de leitura

O Natal, em sua origem simbólica, fala de nascimento, de promessa, de cuidado e de encontro. Evoca a ideia de um começo possível, de um gesto de acolhimento em meio à precariedade, de uma luz que surge quando o mundo parece escuro demais. No entanto, para muitas pessoas, essa mesma data se transforma em um período difícil, silenciosamente doloroso e emocionalmente exigente.
Isso acontece porque o Natal que vivemos hoje não é apenas uma celebração: ele é também um conjunto de expectativas aprendidas muito cedo. Na infância, aprendemos que essa data deveria ser marcada por união, alegria, harmonia familiar, mesas fartas e afetos disponíveis. Essas imagens vão se fixando como ideais e, com o passar da vida, a realidade começa a se distanciar delas. Famílias mudam, vínculos se rompem, pessoas se vão, condições materiais se transformam, e aquilo que antes parecia garantido deixa de existir.
A partir daí, o Natal deixa de ser apenas uma data e passa a funcionar como um espelho. Um espelho que reflete faltas, perdas, lutos, ausências e fraturas que talvez consigamos sustentar ao longo do ano, mas que, nesse período, ganham um peso simbólico maior.
Do ponto de vista psicanalítico, esse sofrimento não nasce apenas daquilo que falta concretamente, mas do excesso de cobrança simbólica que recai sobre o sujeito. Como nos ensinou Sigmund Freud, o mal-estar não está apenas nas perdas em si, mas na forma como a cultura organiza ideais, normas e expectativas às quais tentamos, muitas vezes em vão, corresponder. O Natal se torna, então, um palco privilegiado desse mal-estar.
Já em Jacques Lacan, encontramos uma leitura ainda mais incisiva: o peso do olhar do outro. No Natal, esse olhar se intensifica. É um olhar que parece benevolente, cheio de mensagens de amor, paz e solidariedade, mas que também julga, compara e cobra. Um olhar que pergunta, mesmo sem palavras:
Com quem você vai passar?
Sua família está reunida?
Você está feliz como deveria?
Trata-se de um olhar muitas vezes falso, porque se apresenta como bondade, mas opera como exigência. Um olhar que transforma o amor em performance e o afeto em dever.
É nesse ponto que o texto de um paciente, aqui identificado como W., do Rio de Janeiro, toca com precisão aquilo que muitos sentem, mas têm dificuldade de nomear:
"A sociedade transforma vínculos afetivos em calendário, o afeto em obrigação, e o amor em performance. Quem não se encaixa, pela ausência, pelo luto, pelo abandono, pela pobreza ou pela ruptura, passa a viver essas datas como um espelho cruel da falta.
O que deveria ser memória e cuidado se converte, psicologicamente, em martírio,
não por falta de amor, mas pelo excesso de cobrança simbólica.
Assim, o sofrimento não nasce apenas da ausência,
mas do estigma social que insiste em dizer como e quando se deve amar.
Que possamos entender o que SOMOS, independentemente da data que vivemos."
Esse texto revela algo fundamental: o sofrimento do Natal não está apenas no que não temos, mas na violência simbólica de um modelo único de amar, de celebrar e de existir. Quando não cabemos nesse modelo, a data deixa de ser encontro e passa a ser prova.
Ressignificar o Natal não significa negar sua importância ou desqualificar seus símbolos. Significa, antes, libertá-los da lógica da cobrança e devolvê-los ao campo do possível. O Natal pode ser menos sobre entrega forçada e mais sobre reconhecimento honesto de si. Menos sobre corresponder e mais sobre sustentar aquilo que é real hoje — mesmo que isso inclua silêncio, recolhimento, tristeza ou limites.
Para quem sente que essa data cobra mais do que oferece, talvez o convite seja outro: permitir-se viver o Natal não como ideal, mas como experiência singular. Um Natal que não precisa provar nada para ninguém. Um Natal que acolhe o que existe, e não o que deveria existir.
Que cada um possa, à sua maneira, reinventar o sentido dessa data. Não como obrigação, mas como possibilidade de cuidado consigo mesmo
Um Feliz Natal !!!





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