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Há luz, há esperança!

Fugindo da Dor e dos Vícios: O Preço da Anestesia Emocional na Vida Moderna



Vivemos em uma sociedade que nos ensina, desde cedo, a fugir da dor. Somos educados a evitar o desprazer, a encontrar atalhos que nos distraiam do peso de existir em um mundo competitivo, comparativo e frequentemente tóxico. Em vez de olhar para dentro, recorremos a vícios e rituais diários que nos oferecem um alívio momentâneo — uma trégua, ainda que ilusória.


Mas quando falamos em vícios, não estamos apenas falando de drogas lícitas ou ilícitas. O vício contemporâneo pode estar escondido em comportamentos aparentemente “saudáveis”: a dedicação obsessiva ao trabalho, a busca constante por novas paixões, a prática excessiva de exercícios físicos, o consumismo sem fim. São rituais que tentam abafar angústias antigas, dores de infância não elaboradas, traumas invisíveis ou lembranças reprimidas de bullying e de carências afetivas.


O sujeito contemporâneo, paradoxalmente, vive desconectado de si e da própria sociedade que o empurra para desejos irreais — quase sempre pagos. O preço é alto: inseguranças, desesperança e um desprazer constante. Nessa dinâmica, a compulsão cumpre uma função: aliviar temporariamente a dor, oferecer uma sensação de distância em relação ao que machuca. Mas, como nos lembra Gabor Maté, o vício nunca cura. Ele mascara, anestesia, ilude.


A pergunta essencial, portanto, não é “como parar um vício”, mas “o que está doendo em mim?”. Que angústia tento abafar? Que dor não quero encarar? Por que preciso desse alívio agora?


A travessia não é simples. Muitas vezes, envolve resgatar lembranças que foram reprimidas justamente para proteger o sujeito de um sofrimento insuportável. Requer coragem para deixar de fugir e começar a compreender.


E aqui está a chave: ninguém precisa atravessar essa jornada sozinho. A terapia oferece um espaço seguro de acolhimento e escuta, onde a dor pode finalmente ser nomeada, reconhecida e integrada. O processo terapêutico não se limita a “resolver problemas” — ele abre a possibilidade de construir uma nova relação consigo mesmo, baseada em compaixão, consciência e esperança.


Há luz e esperança fora do labirinto dos vícios. Mas ela só se revela quando paramos de fugir e escolhemos olhar de frente para aquilo que dói. A cura começa no momento em que aceitamos que não precisamos mais anestesiar nossas feridas: podemos atravessá-las, transformá-las e, a partir delas, renascer.


Julio Cesar Picelli

Psicanalista Clínico | Ex-Gestor de Tecnologia | Escritor e Palestrante sobre Psicanálise, Trabalho e Sociedade


 
 
 

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